A Vida Começa Em Janeiro? Metas para o Ano Novo
- clinicadasein

- 13 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 3 dias

O início de um novo ano traz quase sempre consigo a sensação de rutura, de começo limpo. A ideia de que algo pode ficar para trás, de que este será o ano em que finalmente as coisas vão ser diferentes. As metas e resoluções surgem muitas vezes nesse lugar: como promessas silenciosas de mudança, mas também como a fantasia de que, quando mudarmos alguma coisa em nós, tudo o resto acalma. Como se uma alteração pontual fosse suficiente para organizar o desconforto acumulado.
É importante dizê-lo desde já: não há nada de errado em querer definir objetivos, intenções ou direções para um novo ano. Ter expectativas, desejar mudança e imaginar versões futuras de nós próprios faz parte de estar vivo e implicado na própria vida. O problema não está no desejo de mudar, mas no ponto de onde este desejo parte.
Quando as metas nascem sobretudo da sensação de insuficiência: do que nos falta, do que falhámos, do que “deveríamos” ser... tornam-se facilmente mais um exercício de correção do que um movimento de crescimento.
Talvez por isso valha a pena abrandar antes de olhar para o futuro. Janeiro é, culturalmente, um momento que convida à reflexão, ao balanço, ao fazer “check-up” interno. E acreditamos que isso pode ser muito útil.
Mas esta reflexão não precisa (nem deve!) assumir a forma de um tribunal interno onde se avaliam apenas as falhas, os atrasos e os incumprimentos. É importante lembrarmo-nos que um balanço honesto inclui também aquilo que consideramos que correu bem, tanto porque “sempre foi assim” (e querermos manter) como aquilo que se transformou, mesmo que tenha sido uma transformação discreta.
Mais do que perguntar “o que é que consegui?”, pode ser mais interessante perguntar: Que versões de mim apareceram com mais frequência (e não apenas nos melhores dias) no último ano? Quem fui eu quando as coisas correram melhor? Em que momentos estive mais próximo da pessoa que quero ser?
Nem sempre as mudanças vêm acompanhadas de resultados visíveis ou facilmente mensuráveis, mas é importante lembrarmo-nos que, ainda assim, são progresso real.
Talvez a primeira intenção para um novo ano, e talvez seja a mais justa, seja: não seja mudar, mas continuar. Continuar a cuidar melhor de certos limites. Continuar a comunicar de forma mais honesta. Continuar a ouvir mais o corpo, as emoções, as nossas próprias necessidades. A manutenção é muitas vezes desvalorizada porque não parece ambiciosa (principalmente nestes tempos em que vemos tantas dicas e formas de sermos melhor em muitas áreas em simultâneo). Mas manter algo que nos fez bem exige intenção, esforço e compromisso.
Só depois desta conversa interna, que reconhece o que já existe, é que faz sentido olhar para o futuro e para aquilo que ainda gostaríamos de transformar. Não como um ataque ao que “ainda falta”, mas como uma escolha consciente de áreas onde queremos investir mais.
Surge então outro momento importante, onde é recomendável fazer uma distinção essencial entre aquilo que queremos mudar e aquilo que podemos mudar. O que é razoável e justo de pedirmos a nós próprios.
Muitas vezes, a nossa vida mantém-se estruturalmente semelhante. Vivemos no mesmo sítio, trabalhamos no mesmo contexto, mantemos relações semelhantes, cumprimos rotinas parecidas. Todo este sistema (mesmo de forma inconsciente) tende a empurrar-nos para a continuidade.... Ignorar isto e definir metas como se partíssemos de uma folha em branco é aumentar desnecessariamente a dificuldade do processo. Janeiro pode ser um bom momento para refletir e organizar a nossa direção, mas está longe de ser um reset.
Reconhecer o que está, de facto, ao nosso alcance não é falta de ambição; é realismo psicológico. Está nas nossas mãos mudar, sim, mas dentro de um contexto concreto que importa considerar. Metas demasiado distantes da nossa realidade atual exigem um esforço contínuo de rutura que, para a maioria das pessoas e para a maioria das vidas, não é sustentável. O risco não é apenas falhar, é cansar-se, desistir e reforçar a ideia de que não é capaz.
Por isso, mais do que listas extensas de objetivos, pode ser útil escolher poucos focos e perguntar, com honestidade: porquê? Não para nos motivarmos, mas para percebermos se estas intenções estão alinhadas com o caminho que queremos fazer ou se nasce apenas da urgência de corrigir algo que nos incomoda em nós próprios. O “porquê” ajuda a distinguir mudanças que vêm do desejo e do cuidado próprio, daquelas que vêm da vergonha ou da comparação.
Para além do “porquê”, pode também fazer sentido acrescentar outra pergunta: quando? (que está associada a uma terceira “como?”). Não como um exercício de planeamento, mas como uma forma de avaliar se a mudança que desejamos cabe, neste momento, na vida que já temos. Nem todas as intenções precisam de ser colocadas em prática imediatamente para serem válidas. Algumas precisam de tempo para amadurecer, outras de espaço para poderem ser integradas sem se tornarem mais uma fonte de pressão.
Se aquilo que queremos mudar é algo que desejamos sustentar ao longo do tempo, talvez seja mais realista pensá-lo como um processo de introdução gradual, em vez de uma exigência imediata de transformação. Nem tudo precisa de começar agora para poder, de facto, acontecer.
Importa lembrar que as mudanças reais: mudanças de hábitos, de formas de estar, de padrões relacionais.... são processos que demoram. O sistema humano aprende e integra melhor quando se sente em segurança, não quando está sob exigência constante. Avançar passo a passo pode parecer lento, mas constrói resistência. Começar em sprint pode dar a ilusão de eficácia, mas frequentemente leva ao esgotamento e à interrupção precoce do caminho.
Talvez este novo ano não precise de começar com uma rutura total. Talvez possa começar com uma continuidade escolhida, com ajustes possíveis e com metas que respeitam a realidade em que vivemos. Mudar não precisa de ser apagar quem fomos; pode ser sustentar, com mais intenção, quem estamos a procurar ser.





























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