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Musicoterapia Neurológica

 
Como o cérebro reage à música
 

     A música constitui uma ferramenta que pode ser utilizada como uma modalidade alternativa e terapêutica para aceder a funções que não se encontram normalmente disponíveis através de outros estímulos (terapias não musicais, por exemplo) ou para fornecer outras vias de transmissão para o processamento de informações no cérebro. Estudos empíricos recentes dizem-nos que a música tem a capacidade para estimular determinados processos no cérebro humano que poderão ser generalizados e transferidos para funções não musicais, tendo como resultado efeitos terapêuticos mensuráveis (Altenmüller & Schlaug, 2013; Bringas et al., 2015; Schlaug, 2011; Sluming et al., 2002; Thaut, 2005). Tal é possível porque atualmente sabemos que o cérebro reage à música na sua globalidade, sendo esta processada em variadas partes, por exemplo através da escuta de música que ativa não só as áreas auditivas, como também redes extensas em todo o cérebro.

    

Um grande responsável pela existência dessas redes cerebrais consiste no giro frontal inferior posterior (a chamada área de Broca), a área que executa a receção multimodal e integração sensório-motora. Galińska (2015) demonstrou que durante atividades musicais, o giro frontal inferior posterior fica ativado quando alguém ouve, vê ou executa ações específicas e que a prática musical implica o exercitar desta componente. A associação de ações a determinados sons, assim como a prática musical de pessoas que não se encontram ligadas à música conduzem a mudanças funcionais e estruturais nos córtices frontais (Altenmüller & Schlaug, 2013; Fujioka et al., 2006; Schlaug, 2011), visto que ocorre uma transferência de competências adquiridas, potenciando-se uma melhoria do funcionamento comportamental e cognitivo: a literatura tem designado este processo por plasticidade intermodal do cérebro (Münte et al., 2002; Schlaug, 2011). Assim, desta interação entre música e o seu processamento em várias áreas do cérebro desenvolve-se uma via para a incorporação de conexões adicionais, o que se torna de grande utilidade e relevância em clientes com doenças neurológicas. 

 

Musicoterapia e cognição
 
     Uma definição mais precisa do conceito de Musicoterapia é a utilização da música para modificar processos cerebrais, envolvendo a atenção e o interesse do paciente, tal como a confirmação desse efeito de envolvimento e as suas consequências. Este conceito de Musicoterapia em contextos neurológicos foi documentado, standardizado e recebeu um diagnóstico neurocientífico atribuído por Thaut e Mcintosh (2010) e Thaut e Hoemberg (2014) - criando um campo de atuação conhecido como Musicoterapia Neurológica (NMT), que fornece uma epistemologia sistemática para investigação em música e reabilitação. 
 
     Os protocolos de Musicoterapia Neurológica aplicam-se tanto a adultos como a crianças com um espectro de patologias e deficiências neuropsicológicas variado, coincidindo com a revisão recente e abrangente de estudos de Yinger e Gooding (2014) que, ao avaliarem o impacto da Musicoterapia em ambiente neuropediátrico, defendem que é uma especialidade de utilização geral que poderá ser aplicada a uma ampla variedade de distúrbios. 
No domínio da reabilitação cognitiva, a utilização terapêutica da  música funciona como um elemento que aciona a memória e a recordação de informações, revelando ser uma ajuda preciosa para clientes com danos cerebrais e do foro neurológico (Gervin, 1991; Jäncke, 2008; Prickett, 2000). 
 

     Por entre as técnicas musicoterapêuticas mais utilizadas em intervenções com enfoque na reabilitação cognitiva, encontramos a improvisação e a criação de canções como recursos empregues para recuperar funções reflexivo-executivas, dado que nestas atividades são requeridas competências de velocidade de processamento da informação, de organização, autocontrole, flexibilidade cognitiva e criatividade (Thaut et al., 2009; Tomaino, 2013). A escuta de canções e posterior troca de ideias,  quando a comunicação verbal com o paciente é exequível, consiste noutra técnica aplicada pelos musicoterapeutas para avaliarem as competências de escuta, memória de informação, foco atencional, concentração e pensamento abstrato dos clientes.  

 

     O estudo de caso de Bower, Catroppa, Grocke e Shoemark (2014) adiciona outro conhecimento importante ao existente nesta área pela descrição e definição dos comportamentos de resposta à familiaridade com a música numa sessão de musicoterapia. Neste estudo experimental, foram utilizadas e reproduzidas apenas canções familiares e do gosto da criança paciente (com ou sem acompanhamento de guitarra clássica) como técnica de intervenção pelo musicoterapeuta. Os resultados demonstraram períodos breves, porém consistentes e repetidos, de consciência e capacidade de resposta ao canto ao vivo das canções conhecidas e potenciaram momentos de consciência emergente e uma resposta antecipada da paciente, promovendo a sua reabilitação cognitiva na fase aguda do seu pós-traumatismo craniano. 

Frequentemente, a musicoterapia recorre também a atividades que envolvam instrumentos de percussão para trabalhar aspetos relacionados com a atenção (atenção sustentada, atenção seletiva, atenção alternada), orientação, iniciação de movimento, gestão da impulsividade e/ou persistência na realização de tarefas (Thaut, 2005).

 

 

 


 

Referências

 

Altenmüller, E., & Schlaug, G. (2013). Neurologic music therapy: The beneficial effects of music making on neurorehabilitation. Acoustical Science and Technology, 34(1), 5– 12. doi:10.1250/ast.34.5.

 

Bower, J., Catroppa, C., Grocke, D., & Shoemark, H. (2014). Music therapy for early cognitive rehabilitation post-childhood TBI: An intrinsic mixed methods case study. Developmental Neurorehabilitation, 17(5), 339-346. doi: 10.3109/17518423.2013.778910.

 

Bringas, M.L., Zaldivar, M., Rojas, P.A., Martinez-Montes, K., Chongo, D.M., Ortega, M.A., Galvizu, R., Perez, A.E., Morales, L.M., Maragoto, C., Vera, H., Galan, L., Besson, M. & Valdes-Sosa, P.A. (2015). Effectiveness of music therapy as an aid to neurorestoration of children with severe neurological disorders. Frontiers in Neuroscience. 9: 427, 1-15. doi: 10.3389/fnins.2015.00427.

 

Fujioka, T., Ross, B., Kakigi, R., Pantev, C. & Trainor, L.J (2006). One year of musical training affects development of auditory cortical-evoked fields in young children. Brain, 129, 2593–2608.

 

Galińska, E. (2015). Music therapy in neurological rehabilitation settings. Psychiatria Polska, 49(4), 835–846. doi: http://dx.doi.org/10.12740/PP/25557.

 

Gervin, A.P. (1991). Music Therapy Compensatory Technique Utilizing Song Lyrics during Dressing to Promote Independence in the Patient with a Brain Injury. Music Therapy Perspectives, 9 (1), 87–90. doi: https://doi.org/10.1093/mtp/9.1.87. 

 

Jäncke, L. (2008). Music, memory and emotion. Journal of Biology, 7(21), 1-5. doi: http://dx.doi.org/10.1186/jbiol82.

 

Münte, T., Altenmüller, E., & Jäncke, L. (2002). The musician’s brain as a model of neuroplasticity. Nature Reviews Neuroscience, 3, 473–478. doi: 10.1038/nrn843.

 

Prickett, C. A. (2000). Music therapy for older people: Research comes of age across two decades. In D. S. Smith (Ed.), Effectiveness of music therapy procedures: A documentation of research and clinical practice, Silver Spring, MD: American Music Therapy Association, 297–322.

 

Schlaug, G. (2011). Music, musicians, and brain plasticity. In: Hallam S, Cross I, Thaut M. ed. The Oxford handbook of music psychology. Oxford, New York: Oxford University Press, 197–207.

 

Sluming, V., Barrick, T., Howard, M., Cezayirli, E., Mayes, A. & Roberts, N. (2002). Voxel-based morphometry reveals increased gray matter density in Broca’s area in male symphony orchestra musicians. Neuroimage, 17, 1613–1622.

 

Thaut, M. H., & Hoemberg, V. (2014). Handbook of Neurologic Music Therapy. New York, NY: Oxford University Press. 

 

Thaut, M. H., & Mcintosh, G. C. (2010). How Music Helps to Heal the Injured Brain: Therapeutic Use Crescendos Thanks to Advances in Brain Science. Cerebrum Dana Foundation. Available online at: http://dana.org/news/cerebrum/detail.aspx?id= 26122.

 

Thaut, M. H., Gardiner, J. C., Holmberg, D., Horwitz, J., Kent, L., Andrews, G., McIntosh, G. R. (2009). Neurologic music therapy improves executive function and emotional adjustment in traumatic brain injury rehabilitation. Annals of the New York Academy of Sciences, 1169, 406–416. http://dx.doi.org/10.1111/j.1749-6632.2009.04585.x. 

 

Thaut, M.H. (2005). Rhythm, music, and the brain: Scientific foundations and clinical applications. New York: Routledge.

 

Tomaino, C. M. (2013). Creativity and improvisation as therapeutic tools within music therapy. Annals of the New York Academy of Sciences, 1303, 84–86. http://dx.doi.org/10.1111/nyas.12224.

 

Yinger, O. S., & Gooding, L. (2014). Music therapy and music medicine for children and adolescents. Child and Adolescent Psychiatric Clinics of North America. 23, 535–553. doi: 10.1016/j.chc.2013.03.003.


 

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