Quando a mão não corresponde à instrução

A disgrafia começa a ser um tema muito comum, atualmente, abordada não só por terapeutas, professores e educadores, como também, pelos próprios pais. A escrita é efetivamente uma competência que, cada vez mais, é realizada com variadas dificuldades pelas crianças de hoje. Tem sido verificado um aumento de encaminhamentos de crianças por dificuldades na pega do lápis e no controlo dos grafismos. Estas queixas que se traduzem, muitas vezes, em comportamentos de revolta marcados pelas crianças no ato da escrita.

Quando iniciamos o processo terapêutico através da avaliação psicomotora, a falta de experiências psicomotoras de base destas crianças, a impaciência e um generalizado descontrolo corporal, tem sido uma expressão comum. Fatores como a tonicidade, equilibração, lateralização, noção de corpo, estruturação espácio-temporal e praxias estão negligenciados e servem de base à aquisição de aprendizagens completas. Aspetos como, a organização, a perceção, o planeamento e a execução da ação, o autocontrolo e a gestão dos estados de vigília são inexistentes. As crianças precisam de tomar consciência do movimento e do controlo global do seu corpo para que assim, progressivamente, sejam capazes de realizar movimentos mais finos, envolvendo o controlo do braço, antebraço, mão e dedos. É através de experiências intencionais que começam a dar significado ao movimento e às suas representações para melhor se organizarem no espaço - do brincar no chão para as representações no papel.


Perante a presença destas dificuldades recorrentes, é comum surgirem, consequentemente, outras condições na própria criança. Quando esta não consegue realizar o que é esperado e, sobretudo, pela sua comparação com os outros – a baixa autoconfiança, autoestima e tolerância à frustração, os isolamentos face ao grupo de pares ou à rejeição por parte dos mesmos, desencadeia, igualmente, dificuldades na aprendizagem geral e nos vários domínios do desenvolvimento, variando, a expressão destes aspetos, de criança para criança tendo em conta a sua capacidade de resiliência.


O nosso cérebro gosta de relações e associações para mais facilmente integrar aprendizagens. Nas aquisições concretas, do brincar e da exploração, estão envolvidos processos psicomotores (motores, cognitivos e socioemocionais) que irão sustentar aprendizagens académicas mais abstratas.


Parece fácil escrever? Para os adultos já está automatizado mas é um processo muito complexo. Quando escrevemos são ativadas várias componentes psicomotoras:

  • Cognitiva – aquando da representação mental da letra, envolvendo processos que já se encontram integrados pela memória, através do input visual (imagem), auditivo (som) e propriocetivo (posição do corpo em ação);

  • Motora – quando desenhada a letra, através do movimento fino e controlado, onde estão envolvidos conceitos espaciais implícitos (cima/baixo, esquerda/direta, alta/baixa, curva/reta, comprida/curta, grande/pequena). E, posteriormente, na construção de palavras, frases e textos, estes processos são envolvidos novamente e toda a escrita organizada no papel;

  • Socioemocional - quando expressa identidade individual, através do seu resultado, único e diferenciado. Para além disso, é algo que serve para comunicar e que desenvolve a empatia - eu quero que o outro compreenda o que quero transmitir – existe um esforço mais ou menos inconsciente de nos fazermos perceber e de fazer a mensagem chegar ao recetor.

Será que o impacto da tecnologia está a condicionar a escrita das nossas crianças?

O tempo livre para a brincadeira espontânea, a permanência em espaços fechados e a utilização desmedida da tecnologia resultam em ambientes nos quais as crianças exploram e aprendem pouco e deles se tornam dependentes. Também a realidade atravessada, perante a pandemia originada pela COVID-19, impôs maiores restrições neste sentido e as tecnologias são cada vez mais a aposta atual.

Na utilização dos computadores e tablets, não é desenvolvida a oponência do polegar (tocar com o dedo polegar no indicador) tão importante no processo de escrita e, o recurso à memória, pelo movimento exigido na escrita manual, é descurada. Também a envolvência do movimento, aquando da representação gráfica, auxilia na aquisição da leitura. Existe uma associação do som ao desenho da letra, assim como um movimento específico para cada uma, diferente de carregar nas teclas do computador, onde existe sempre o mesmo padrão de ação. Por outro lado, também o excesso de estímulos auditivos, associados aos jogos tecnológicos que tendem a diminuir os níveis de atenção aquando da necessidade de discriminação dos pequenos sons.

O impacto tecnológico constante nas crianças é prejudicial ao seu desenvolvimento holístico.

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